Sofrologia: viver para lá do sofrimento

Texto de Ana Viegas Cruz

Há dias assim, em que acordamos doentes. Naquele dia, eu acordei adoentada. Nada de especial, apenas uma desconfortável dor de garganta. Associada a essa dor, veio uma alteração de humor. Uma irresistível vontade de me sentir vítima, de vestir aquela personagem frágil, que necessita de atenção e cuidados. Na verdade, visto à distância, parecia que o o corpo tinha dado a si mesmo autorização para entrar de férias, antes de tempo. Na verdade, depois de três meses agitados, muito preenchidos de vida social, familiar e laboral, com pouco espaço para o silêncio, sabia bem uma pausa para integrar tantas vivências.

Ainda por cima, a par de tudo isto, no meu mundo interior, uma quantidade de ideias a borbulhar aguardavam o momento certo para saírem, ganharem corpo, espaço, dimensão e propósito. Tem sido um desafio conciliar vida artística e vida mundana. Tantos gestos, hábitos, virados para fora, para os outros e tanta dificuldade em virar-me para dentro e permitir-me mergulhar em mim mesma, onde há tanto para descobrir. Serei egoísta por querer estar só comigo, quando o mundo necessita de ajuda e de atitudes altruístas?

Então, no conforto da doença, resolvo a culpa e permito-me existir. Finalmente um tempo só para mim. Claro que não é a mesma coisa que parar conscientemente, de forma saudável. Há que lidar com a dor física, a dor mental, a dor emocional e a dor espiritual que uma doença traz associada.

É aqui que a contemplação ajuda mesmo muito. Com a prática da sofrologia habituei-me a não me identificar com estas dores mas reservo-me o direito de abraçá-las quando emergem. Por vezes, durante um período de tempo, permito-me deslizar para a teia da doença e sofrer as consequências dessa escolha. Talvez não devesse arriscar-me ser sequestrada pelos meus pensamentos perturbados e pelas minhas emoções tóxicas mas, por outro lado, sei que enriqueço a minha experiência como ser humano quando desbravo caminho entre as silvas. Não é um caminho agradável (nem acho que seja mesmo necessário) mas é uma possibilidade que escolhi entre tantas.

Compreendo perfeitamente porque é que a “Teoria do Leque” de Caycedo se chama, na verdade, Teoria Caycediana das Possibilidades Existenciais do Ser. Somos livres de escolher conscientemente onde queremos colocar a nossa atenção, a nossa energia, a nossa existência.

Nesta teoria, temos a consciência representada por uma figura em forma de leque, dividida em três faixas na vertical – os estados – e três faixas na horizontal – os níveis.

Os estados de consciência são: patológico, natural e sofrónico (ou extraordinário).

Os níveis de consciência são: vigília desperta (quando estamos acordados, e onde predominam as ondas beta), nível de consciência Isocay (também com ondas beta mas com mais ondas alfa – é aqui que a sofrologia opera) e o sono (com mais ondas teta e delta).

Os níveis são facilmente medidos num electroencefalograma, mas os estados não são mensuráveis, isto é, não podemos dizer que alguém está mais patológico que o outro, apesar de distinguirmos bem, numa apreciação subjetiva, quem está mal e quem está bem.

Caycedo descobre algo extraordinário: através das modificações dos níveis de consciência, podemos também alterar os estados de consciência. Se estivermos sujeitos a emoções desagradáveis antes de dormirmos, quando acordamos parece
que nos sentimos pior do que antes de adormecer. Parece uma espécie de ressaca: falta energia ao corpo, a imunidade baixa, desaparece o ânimo para nos levantarmos e irmos ao encontro do nosso dia, temos dificuldade em raciocinar com lucidez. Por isso, não é aconselhável levar as preocupações para a almofada, discutir antes de dormir, ver notícias tristes ou filmes cuja carga emocional seja pesada para digerir durante a noite.

Por outro lado, quando praticamos sofrologia, pelo princípio da ação positiva, mobilizamos os conteúdos positivos que estão na nossa consciência e reforçamos as nossas capacidades. Porque passamos vezes sem conta no nível de consciência Isocay, vamos conquistando o estado de consciência sofrónico, dia-a-dia, repetição após repetição, praticando até que este seja o nosso “habitat natural”.

Claro está que vivemos todo o tipo de sensações, pensamentos e emoções em cada estado, agradáveis e menos agradáveis, mas a atitude com que os vivemos é que é totalmente distinta.

Quando me deixo mergulhar na minha sombra, percebo logo qual é o meu estado de consciência pela maneira como lido com ela. Na consciência patológica, a minha sombra é assustadora e muitas vezes penso que vou ser engolida por ela. Nesses momentos, reforço a minha compaixão por todos aqueles que sofrem.

Não há como não sentir empatia quando vivemos numa prisão. Eu identifico-me de tal forma com a dor que durante uns tempos o meu diálogo interior alimenta esse estado. Conto uma história e repito-a até acreditar nela. As minhas emoções querem ir mas eu agarro-me a elas e não as deixo partir. Vivo sentimentos pesados e surpreendo-me como é possível ver o mundo sem aquelas lentes tão escuras e distorcidas. Torno-me refém da minha sombra. Depois, há aquele momento
em que me lembro que sou eu que estou a usar os óculos; que sou eu que estou a contar as histórias. Eu sou a contadora de histórias, não a história… É nesse instante que um raio de luz entra nas brechas das feridas e lembro-me que ter emoções não é o mesmo que ser emoções.

Na consciência natural, a minha sombra assombra-me. Volta e meia, lá vem ela como um vento que teima em soprar mais forte e cria-me desconforto. Parece que não me deixa viver sem stress. É como me puxasse para um lugar onde sou turista da minha própria vida. Neste estado, vivo em modo automático, afastando as nuvens sempre que elas aparecem para continuar a existir sem saborear a minha existência, ainda que funcional. É um despachar de listas de tarefas, um despachar para ir dormir que amanhã é outro dia, sem grande propósito, nem sentido. É um vai-se andando, numa espécie de felicidade plástica, que cai bem à sociedade mas que não me cai bem
a mim, criando uma certa comichão. A dado momento, olho para a minha agenda e recordo-me que não sou uma lista de afazeres… Sim, sou aquela que decidiu fazer, pois queria ser mas, afinal, eu já existia antes de tudo isso acontecer. É nesse instantes que um raio de luz entra nas brechas das tarefas e lembro-me que fazer não é o mesmo que ser e que este tem de vir primeiro.

Na consciência sofrónica, a minha sombra é minha amiga, é mais um braço ou uma perna, é uma parte de mim. Sem ela, eu não sou eu. Há desconforto mas eu estou em casa. E se a casa anda sombria, basta-me abrir mais umas janelas. Eu escuto a minha sombra, falo com ela, recebo a sua mensagem, agradeço, deixando-a ir. Liberto-a e liberto-me. E assim, vou gerindo as emoções e os pensamentos desafiantes, procurando não me identificar com eles mas sem negar a sua existência dentro de mim. E quando a doença, também tem espaço para falar, para dizer porque é que está ali, quando é compreendida, acolhida e honrada, começa a cura.

É uma inevitabilidade enquanto humanos viver a experiência da dor e da sombra mas é uma possibilidade viver tudo isso sem sofrimento. Compete-nos a nós escolher. Temos essa liberdade e essa responsabilidade.

Antes, numa tentativa de lidar com a dor, dizia para mim mesma: “Isto não sou eu. Eu não sou a dor”. Na verdade, era do sofrimento que eu falava sem saber, pois quando me ouvi dizer: “Eu também sou isto. Isto também é meu”, algo incrível aconteceu. O sofrimento despediu-se de mim, deixando para trás apenas a dor. E viver a dor, para lá do sofrimento, é existir. Antes eu apenas sobrevivia.




Crónica de Ana Viegas Cruz

Master Especialista em Sofrologia Caycediana, Professora de Yoga, Formadora

Ana Viegas Cruz descobriu os benefícios da Sofrologia em 1996, obtendo 4 anos depois, o grau de Sofróloga Caycediana Master Especialista. Aperfeiçoou-se, na Suíça, em Sofrologia Social aplicada ao lúdico e à pedagogia. Começa a trabalhar na área de desenvolvimento pessoal em 2000. Em 2011 torna-se co-diretora da Escola de Sofrologia Caycediana de Santarém, vive em Lisboa e trabalha com Yoga e Sofrologia, na Portela (Loures).

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