Há dias assim, em que acordamos doentes. Naquele dia, eu acordei adoentada. Nada de especial, apenas uma desconfortável dor de garganta. Associada a essa dor, veio uma alteração de humor. Uma irresistível vontade de me sentir vítima, de vestir aquela personagem frágil, que necessita de atenção e cuidados. Na verdade, visto à distância, parecia que o o corpo tinha dado a si mesmo autorização para entrar de férias, antes de tempo. Na verdade, depois de três meses agitados, muito preenchidos de vida social, familiar e laboral, com pouco espaço para o silêncio, sabia bem uma pausa para integrar tantas vivências.
Ainda por cima, a par de tudo isto, no meu mundo interior, uma quantidade de ideias a borbulhar aguardavam o momento certo para saírem, ganharem corpo, espaço, dimensão e propósito. Tem sido um desafio conciliar vida artística e vida mundana. Tantos gestos, hábitos, virados para fora, para os outros e tanta dificuldade em virar-me para dentro e permitir-me mergulhar em mim mesma, onde há tanto para descobrir. Serei egoísta por querer estar só comigo, quando o mundo necessita de ajuda e de atitudes altruístas?
Então, no conforto da doença, resolvo a culpa e permito-me existir. Finalmente um tempo só para mim. Claro que não é a mesma coisa que parar conscientemente, de forma saudável. Há que lidar com a dor física, a dor mental, a dor emocional e a dor espiritual que uma doença traz associada.
É aqui que a contemplação ajuda mesmo muito. Com a prática da sofrologia habituei-me a não me identificar com estas dores mas reservo-me o direito de abraçá-las quando emergem. Por vezes, durante um período de tempo, permito-me deslizar para a teia da doença e sofrer as consequências dessa escolha. Talvez não devesse arriscar-me ser sequestrada pelos meus pensamentos perturbados e pelas minhas emoções tóxicas mas, por outro lado, sei que enriqueço a minha experiência como ser humano quando desbravo caminho entre as silvas. Não é um caminho agradável (nem acho que seja mesmo necessário) mas é uma possibilidade que escolhi entre tantas.
Compreendo perfeitamente porque é que a “Teoria do Leque” de Caycedo se chama, na verdade, Teoria Caycediana das Possibilidades Existenciais do Ser. Somos livres de escolher conscientemente onde queremos colocar a nossa atenção, a nossa energia, a nossa existência.
Nesta teoria, temos a consciência representada por uma figura em forma de leque, dividida em três faixas na vertical – os estados – e três faixas na horizontal – os níveis.
Os estados de consciência são: patológico, natural e sofrónico (ou extraordinário).

Os níveis de consciência são: vigília desperta (quando estamos acordados, e onde predominam as ondas beta), nível de consciência Isocay (também com ondas beta mas com mais ondas alfa – é aqui que a sofrologia opera) e o sono (com mais ondas teta e delta).
Os níveis são facilmente medidos num electroencefalograma, mas os estados não são mensuráveis, isto é, não podemos dizer que alguém está mais patológico que o outro, apesar de distinguirmos bem, numa apreciação subjetiva, quem está mal e quem está bem.
Caycedo descobre algo extraordinário: através das modificações dos níveis de consciência, podemos também alterar os estados de consciência. Se estivermos sujeitos a emoções desagradáveis antes de dormirmos, quando acordamos parece
que nos sentimos pior do que antes de adormecer. Parece uma espécie de ressaca: falta energia ao corpo, a imunidade baixa, desaparece o ânimo para nos levantarmos e irmos ao encontro do nosso dia, temos dificuldade em raciocinar com lucidez. Por isso, não é aconselhável levar as preocupações para a almofada, discutir antes de dormir, ver notícias tristes ou filmes cuja carga emocional seja pesada para digerir durante a noite.
Por outro lado, quando praticamos sofrologia, pelo princípio da ação positiva, mobilizamos os conteúdos positivos que estão na nossa consciência e reforçamos as nossas capacidades. Porque passamos vezes sem conta no nível de consciência Isocay, vamos conquistando o estado de consciência sofrónico, dia-a-dia, repetição após repetição, praticando até que este seja o nosso “habitat natural”.
Claro está que vivemos todo o tipo de sensações, pensamentos e emoções em cada estado, agradáveis e menos agradáveis, mas a atitude com que os vivemos é que é totalmente distinta.
Quando me deixo mergulhar na minha sombra, percebo logo qual é o meu estado de consciência pela maneira como lido com ela. Na consciência patológica, a minha sombra é assustadora e muitas vezes penso que vou ser engolida por ela. Nesses momentos, reforço a minha compaixão por todos aqueles que sofrem.
Não há como não sentir empatia quando vivemos numa prisão. Eu identifico-me de tal forma com a dor que durante uns tempos o meu diálogo interior alimenta esse estado. Conto uma história e repito-a até acreditar nela. As minhas emoções querem ir mas eu agarro-me a elas e não as deixo partir. Vivo sentimentos pesados e surpreendo-me como é possível ver o mundo sem aquelas lentes tão escuras e distorcidas. Torno-me refém da minha sombra. Depois, há aquele momento
em que me lembro que sou eu que estou a usar os óculos; que sou eu que estou a contar as histórias. Eu sou a contadora de histórias, não a história… É nesse instante que um raio de luz entra nas brechas das feridas e lembro-me que ter emoções não é o mesmo que ser emoções.
Na consciência natural, a minha sombra assombra-me. Volta e meia, lá vem ela como um vento que teima em soprar mais forte e cria-me desconforto. Parece que não me deixa viver sem stress. É como me puxasse para um lugar onde sou turista da minha própria vida. Neste estado, vivo em modo automático, afastando as nuvens sempre que elas aparecem para continuar a existir sem saborear a minha existência, ainda que funcional. É um despachar de listas de tarefas, um despachar para ir dormir que amanhã é outro dia, sem grande propósito, nem sentido. É um vai-se andando, numa espécie de felicidade plástica, que cai bem à sociedade mas que não me cai bem
a mim, criando uma certa comichão. A dado momento, olho para a minha agenda e recordo-me que não sou uma lista de afazeres… Sim, sou aquela que decidiu fazer, pois queria ser mas, afinal, eu já existia antes de tudo isso acontecer. É nesse instantes que um raio de luz entra nas brechas das tarefas e lembro-me que fazer não é o mesmo que ser e que este tem de vir primeiro.
Na consciência sofrónica, a minha sombra é minha amiga, é mais um braço ou uma perna, é uma parte de mim. Sem ela, eu não sou eu. Há desconforto mas eu estou em casa. E se a casa anda sombria, basta-me abrir mais umas janelas. Eu escuto a minha sombra, falo com ela, recebo a sua mensagem, agradeço, deixando-a ir. Liberto-a e liberto-me. E assim, vou gerindo as emoções e os pensamentos desafiantes, procurando não me identificar com eles mas sem negar a sua existência dentro de mim. E quando a doença, também tem espaço para falar, para dizer porque é que está ali, quando é compreendida, acolhida e honrada, começa a cura.
É uma inevitabilidade enquanto humanos viver a experiência da dor e da sombra mas é uma possibilidade viver tudo isso sem sofrimento. Compete-nos a nós escolher. Temos essa liberdade e essa responsabilidade.
Antes, numa tentativa de lidar com a dor, dizia para mim mesma: “Isto não sou eu. Eu não sou a dor”. Na verdade, era do sofrimento que eu falava sem saber, pois quando me ouvi dizer: “Eu também sou isto. Isto também é meu”, algo incrível aconteceu. O sofrimento despediu-se de mim, deixando para trás apenas a dor. E viver a dor, para lá do sofrimento, é existir. Antes eu apenas sobrevivia.
Crónica de Ana Viegas Cruz
Master Especialista em Sofrologia Caycediana, Professora de Yoga, Formadora
Ana Viegas Cruz descobriu os benefícios da Sofrologia em 1996, obtendo 4 anos depois, o grau de Sofróloga Caycediana Master Especialista. Aperfeiçoou-se, na Suíça, em Sofrologia Social aplicada ao lúdico e à pedagogia. Começa a trabalhar na área de desenvolvimento pessoal em 2000. Em 2011 torna-se co-diretora da Escola de Sofrologia Caycediana de Santarém, vive em Lisboa e trabalha com Yoga e Sofrologia, na Portela (Loures).
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