O corpo fala connosco. No caso do burnout esta é uma conversa que começa em surdina e vai em crescendo se fazemos orelhas moucas aos primeiros sinais.
Quais foram os meus? Tenho de recuar três anos no calendário para chegar a eles. 2020, ano da pandemia e do ‘lockdown’, marca o início deste diálogo surdo em que o meu corpo me começou a dizer para abrandar. Conciliar o trabalho com uma criança de seis anos em casa, sem escola, lidar com uma equipa de trabalho reduzida do dia para a noite, em que vários colaboradores a recibos verdes foram dispensados, batalhar com um aumento crescente da pressão, telefonemas a qualquer hora, dia e noite, fizeram com que chegasse ao verão exausta.
Hoje sou capaz de olhar para as dores de cabeça que nessa época se acometiam de mim sempre que ligava o computador como um sinal inequívoco que tinha de parar. Demorava mais do dobro do tempo a realizar tarefas que faziam parte da minha rotina profissional. Na altura pensei apenas precisava de férias. Três semanas depois, as dores de cabeça tinham passado. Mas o contexto da minha vida não. E voltei ao mesmo.
Nessa altura, os sintomas foram substituídas pela ansiedade. Um desconforto que eu não conseguia explicar racionalmente, mas que se acometia de mim sempre pela manhã, ao ponto em que recorri à minha médica e lhe pedi um ansiolítico para usar em SOS. O SOS tornou-se diário e durante um ano conseguiu trabalhar porque todas as manhãs tomava a pílula mágica. Mas não era assim tão mágica, porque o contexto não mudava e, mais importante – eu não mudava. Antes me deixava arrastar por uma exigência constante do meu tempo e da minha atenção, deixando cair atividades de que gostava – como correr ou caminhar – porque dizia sempre que não tinha tempo.

O meu telefone não parava o dia toda, com chamadas, emails e Whastapps e eu queria chegar a todo o lado, ao ponto do meu filho me dizer um dia que gostava mais do trabalho do que dele. Ia buscá-lo a escola para o deixar no basquete e ficava uma hora e meia dentro do carro a trabalhar.
Nunca colocava o telefone no silêncio. Nunca deixava uma chamada por atender. A minha semana era de sete dias porque na minha área – o jornalismo digital – as ‘notícias’ não param ao fim de semana. O que não percebi é que era eu que tinha de parar.
Os meses passaram e o simples sinal de notificação no telemóvel tornava-me ansiosa. Recebia uma chamada e, fosse quem fosse, sentia-me irritada pelo simples facto de me estarem a ligar. Revirava os olhos quando me apresentavam problemas. Comecei a ficar irritada com tudo e todos, mas tentava engolir essa sensação e para o mundo dar a impressão que continuava a mesma: profissional, afável, disponível. Na realidade, sentia-me sem energia e o que era um prazer tornara-se uma espécie de castigo a que me tinha de submeter todos os dias.
Um dia a corda estourou com um ataque de pânico que me levou ao hospital. Os sinais estavam lá todos. Eu é que não os quis ouvir.
O que é o burnout:
O Burnout (ou Síndrome de Burnout) é caracterizado como um estado de exaustão emocional, física e mental causado por stress laboral excessivo e prolongado. A pessoa sente que não tem estratégias ou capacidades para lidar com o que se passa. Também designado como Síndrome de Esgotamento Profissional, foi assim denominada pelo psicanalista alemão Herbert Freudenberger (nome do livro) que diagnosticou em si próprio essa situação na década de 70, vindo a escrever um livro que se tornou central no estudo desta síndrome. Freudenberger definiu o esgotamento como um estado de fadiga ou frustração causado pela devoção a uma causa, modo de vida ou relacionamento que falhou em produzir a recompensa esperada. Uma definição mais recente e mais ampla sugerida por Maslach e Leiter define burnout como uma síndrome psicológica que surge como uma resposta prolongada a fatores de stress crónicos no trabalho.
Texto escrito por Sofia Martinho, especialista em Marketing e Comunicação
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