Quioto e a magia das Gueixas

Crónica de Ely Pinto

Em 1997, li uma obra de Arthur Golden, chamada “Memórias de uma Gueixa”. Para os mais jovens ou menos bibliófilos, a história leva-nos ao coração do Japão dos anos 30. Uma autentica viagem no tempo e no espaço, onde o leitor vê-se mergulhado no bairro de Gion. Uma época em que as gueixas enfeitiçavam os homens mais poderosos do Japão com as suas canções e danças. Com uma elegância discreta, uma beleza pura e uma distinção suave, descobrimos que as gueixas eram na verdade prisioneiras da sua própria condição. 

Fiquei logo extremamente curiosa e fascinada pelo Japão.

Tive a oportunidade de viajar para lá varias vezes: Tóquio, Osaka, Hiroshima, Nara, Sapporo…. e o meu fascínio  aumentou cada vez mais. 

O Japão domina a arte do paradoxo.

Mistura-se a tradição à modernidade,  o silêncio ao barulho, o frenesim ao Zen.

Estranhamente, reside uma certa harmonia e equilíbrio no meio de tudo.

Quioto exemplifica na perfeição esta amálgama.

Capital imperial durante mais de 1000 anos,  é considerada a capital histórica e cultural do Japão. Guardiã das tradições, é a cidade das artes, das gueixas, da culinária Kaiseki ryori, a alta gastronomia japonesa.

Quioto é imperdível quando se visita o Japão. 

Ikimachōo? Vamos lá? 

Durante séculos, Quioto foi destruída por inúmeras guerras e incêndios, mas, devido ao seu valor especial, foi retirada da lista de cidades-alvo da bomba atómica e escapou a uma destruição garantida.

A cidade é composta por 2 mil templos budistas e xintoístas, 17 dos quais estão listados como Património Mundial da UNESCO.

Por essa razão, sugiro que se passe pelo menos quatro dias, para passear pelo bairro histórico, visitar os diversos museus, almoçar nos mercados, descobrir a cultura do chá nas casas tradicionais, mas também visitar os muitos templos, palácios e jardins. 

Recomendo que passem uma noite pelo menos num ryokan, que são casas de hospedes típicas japonesa. O espaço é bastante reduzido, mas muito ergonómico. A cama é um tatami, o colchão é um futon e, como imaginam, dorme-se no chão.  Muitos ryokan possuíam onsen, que são os banhos quentes japoneses, que geralmente se encontram no piso inferior. São espaços partilhados e alguns proíbem a entrada as pessoas tatuadas. 

Quioto é uma cidade com mais de um milhão de habitantes bastante espalhada, porém podemos facilmente descobri-la de autocarro, a pé ou de bicicleta. Sem pressa, deixem-vos perder pelas avenidas verdes, pelos canais ladeados por antigas casinhas de madeira e pelas pequenas ruas com vários Izakayas, estes típicos restaurantes baratos decorados com lanternas coloridas e caligrafadas. 

Bairro de Gion/Pontocho

O bairro tradicional de Gion está localizado no coração de Quioto. As ruazinhas vão mergulhar-vos numa atmosfera muito especial, numa outra época, a tal do livro ao qual me referi e de que tanto gosto. As ruas são estreitas e escuras, dão um ambiente acolhedor. É uma área muito fotogénica. É aqui que potencialmente se pode vislumbrar uma gueixa

As gueixas são símbolos da cultura tradicional japonesa. São treinadas em disciplinas artísticas tradicionais japonesas (dança, canto, desenho floral, arte do chá, música, poesia) e passam por uma aprendizagem muito rigorosa antes de se tornarem gueixas. Durante o treino intenso, que dura cinco anos, as aprendizes de gueixa são chamadas de maiko e vivem numa ochaya

Para ver uma, é preciso :

* ter sorte,

* Assistir a um espetáculo aberto ao público,

* Ou participar numa noite privada numa casa de chá.

A Caminhada dos Filósofos é uma caminhada Zen de dois quilómetros ao longo do canal. O caminho é ladeado por sakuras, as cerejeiras tão características do Japão. Este passeio encantador leva-nos ao famoso templo Ginkakuji, o templo de prata. O templo é menos impressionante que o Templo Dourado, mas o jardim é excepcional.

Templo Kinkakuji

Mais conhecido como Pavilhão Dourado. Deve o seu nome ao facto dos pisos superiores serem integralmente revestidos de folhas de ouro. É um lugar único. Localizado no meio dum lago, que dá a impressão de estar a flutuar acima da água. Hoje, é uma das atrações turísticas mais populares do Japão.

Fushimi Inari

O maior santuário xintoísta do Japão, dedicado à deusa do arroz, Inari.  A sua beleza é revelada durante uma caminhada até o topo da colina sob 10.000 ‘portas ‘, vermelhas com pés pretos.

Estes toriis, são basicamente um grande portal, que marca a separação entre o espaço sagrado e o mundo profano, entre o mundo aqui e o mundo além habitado por espíritos, divindades e deuses. Estes toriis são geralmente financiados por empresários poderosos. Considerado o emblema da cidade, este local é muito frequentado. É melhor visitar cedo pela manhã.

Templo Kiyomizudera

O Templo Kiyomizudera, “o grande templo da água”, é o mais visitado de Quioto. As ruas pedonais que conduzem ao templo estão entre as mais icónicas. Este lugar é bastante frequentado.

O edifício principal é construído sobre palafitas e seu terraço oferece uma vista deslumbrante sobre a cidade.

Arashiyama

Durante muito tempo, Kyoto foi chamada de Heian-kyō que significa “capital da paz e da tranquilidade”. O distrito de Arashiyama, localizado no noroeste da cidade, ilustra perfeitamente esse nome. Arashiyama é um refúgio de tranquilidade e um recanto da natureza em Quioto com a sua floresta de bambus.

Embora esta floresta não seja enorme, é um lugar lindo. Para desfrutar ao máximo, vá de manhã cedo porque este local é obviamente muito turístico e por isso muito visitado! Um beco cheio de turistas quebra o charme todo, certo?…

Kaseiki Ryori é uma cozinha gourmet japonesa muito refinada e cuidada. É pensado de acordo com a estação, na harmonia de cores, sabores, texturas e com produtos locais muito frescos.

Kaseiki é composto e servido em diversos pratos pequenos, geralmente mais de dez.

Este prato costuma ser servido nos ryokan (pousada tradicional). É um prato bastante caro.

Outra opção: Obanzai ryori. São pratos caseiros simples é uma cozinha tradicional, sendo que pelo menos metade dos ingredientes deve ser produzida ou processada em Quioto. E também devem ser de temporada. São cozinhados de forma simples, bastante barata e muito saudável

A cidade é eminentemente turística, isso é um facto; no outono ou na primavera com as sakuras, a densidade é simplesmente louca, até mesmo desanimadora!

Porém, como resistir ás cores do outono ou às cerejeiras em flor?

É intemporal e por vezes sentimos que estamos noutro tempo. 

Há uma riqueza aqui e uma série de possibilidades disponíveis para todos os gostos.


Crónica de Ely Pinto

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Ely PintoFotógrafa “Viajo e fotografo à descoberta de quem somos. Tento perceber a diversidade que nos deveria unir, mas que nos afasta e quase sempre nos separa. Faço retratos de rua, espontâneos, imperfeitos mas únicos. Surgem inesperadamente. É algo indescritível. Atrai-me! Um momento, um sentimento que vem do outro, de alguém que não conhecemos e que nunca iremos voltar a ver. Ou será que queremos captar a imagem de quem fomos naquele preciso momento?”