Sou uma portuguesa desnaturada. A febre que os povos têm pelas equipas de futebol sempre me deixou bastante confusa. Eu, que mal consigo distinguir o Benfica do Sporting, confesso…
No entanto, acho mágica esta coesão social que se cria e o orgulho nacional que se sente. Há algo impalpável e místico que une as pessoas quando se juntam para ver um ‘jogo de bola’. É verdade, nunca somos tão patrióticos!
Em 2010, o mundo inteiro esteve com os olhos virados para a África do Sul.
Pela primeira vez, o Campeonato Mundial da FIFA foi organizada no continente africano, apesar da taxa elevada de criminalidade e da extrema pobreza. Organizar um evento internacional desta escala representa, sem dúvida, uma publicidade gigante para o país anfitrião. Deixou os africanos orgulhosos do seu continente e do seu país, que ainda carrega as cicatrizes do apartheid, este sistema de segregação, que reduziu as populações não brancas a um nível de inferioridade.
Há 30 anos, o conceito de nação arco-íris de Nelson Mandela pôs fim a esse regime. Hoje, o país está em constante crescimento, impulsionado por uma geração que quer definitivamente virar a página dessa época escura e dramática.
A África do Sul tornou-se uma nova terra de aventura e de criatividade.
Localizada no extremo sul do continente, a vibrante Cidade do Cabo (Capetown) é uma das cidades mais emblemáticas e cosmopolitas da África do Sul. Devido à sua combinação única de paisagens marítimas e montanhosas deslumbrantes é uma das cidades mais bonitas do mundo.
Não é por nada que a indústria da Publicidade e do Cinema fez da cidade a ‘Hollywood africana ‘. A cidade oferece muitas vantagens e cenários variados, com riquezas naturais.
Parece que a vanguardista Capetown tem realmente tudo para agradar.
Vamos là??
O sunset na Table Mountain

A Table Mountain é para a Cidade do Cabo o que a Torre Eiffel é para Paris. É declarada uma das Sete Novas Maravilhas da Natureza. A montanha é única: deve o seu nome ao fato do seu topo de três quilómetros quadrados ser perfeitamente plano. Quando as nuvens cobrem a mesa, dizem que a toalha esta posta!
Para subir ao topo, duas possibilidades: de teleférico ou, para os mais aventureiros, de mochila às costa e bons ténis para caminhar. É uma experiência exigente, mas gratificante de mais ou menos duas horas, dependendo do seu condicionamento físico. Vale a pena pois o topo oferece a mais incrível vista panorâmica sobre a cidade.

O sunrise em Lion’s Head
O caminho até ao cume leva-o numa espiral a volta da montanha, de modo que tem uma vista de 360° da cidade à medida que caminha. Dada a diversidade e beleza da paisagem da Cidade do Cabo, isto é realmente algo para ver.
É uma caminhada bastante acessível em termos de dificuldade. É desafiador o suficiente para proporcionar um bom treino, mas, ao mesmo tempo, é muito viável para quem não tem preparação física. São 5,5 quilómetros e uns 600 metros de desnível.

Cabo de Boa Esperança
Para o Ocidente, a história do Cabo da Boa Esperança começa oficialmente em 1488. Foi então que o navegador português Bartolomeu Dias embarcou numa exploração para descobrir as costas africanas a caminho da Índia. Após uma violenta tempestade, Bartolomeu Dias batizou-o de Cabo das Tormentas. Algum tempo depois, o Rei de Portugal decidiu mudar o de nome para Cabo da Boa Esperança porque os portugueses tinham agora “boas esperanças” de chegar à Índia.
Ao contrário da crença popular, é fundamental saber que o Cabo da Boa Esperança não é o ponto mais meridional, ainda que seja o mais famoso. Para isso, é preciso ir até o Cabo das Agulhas.
É um dos raros lugares do mundo que exala tal atmosfera e tal sensação de fim do mundo. Em termos de comparações, o Cabo da Boa Esperança, na África, poderia ser o equivalente ao Cabo Horn, em Ushuaia.
Muizenberg Beach

Talvez a mais icónica praia, caracterizada pelas suas casinha coloridas em madeira.
Brilhante e muito fotogénico, este lugar viu nascer o surf na Africa do Sul.
Aqui nesta parte do mundo, a ameaça de ataque de tubarão é uma realidade. Tubarões-brancos, tubarões-touro e tigres povoam as águas: é importante tomar em consideração as bandeiras pretas e os avisos da policia marítima antes de entrar na água.
Se procura adrenalina, existem varias excursões que permitem mergulhar, fechado numa jaula, para observar o Great White Shark. Para ser sincera, não recomendo.
Os tubarões são animais extremamente tímidos. A última coisa que eles querem é nadar ao lado de uma jaula de mergulhadores que os explora para seu próprio entretenimento. Sabemos que a única maneira de conseguir aproximar os tubarões brancos é com sangue e comida. Acho uma experiência muito inautêntica para nós e para eles e nada orgânica.
Boulder Beach
Pinguins na África? Mesmo? Sim, com certeza!

A colónia de pinguins de Boulders Beach tem atualmente cerca de três mil aves, o que é bastante impressionante, visto que, em 1982, restavam apenas dois casais reprodutores no mundo!
Os pinguins africanos têm geralmente entre 60 e 70 cm de altura e costumavam ser chamados de “pinguins burros” por causa dos gritos que fazem. São muito mais elegantes na água do que em terra. Eles têm uma forma fofa de caminhar que os faz parecer um pouco bêbados, mas são ótimos nadadores! É uma das experiências mais giras que se pode ter na África do Sul e definitivamente algo para incluir durante sua estadia.
BoKaap, o bairro arco íris

Se a África do Sul é a nação do arco-íris, então o pitoresco bairro de Bo Kaap é sem dúvida o seu coração tecnicolor da cidade.
Bo Kaap significa ‘acima do cabo’ em africaans.
Embora as suas ruas tenham ganho popularidade nos últimos anos graças ao seu potencial instagramavél, o bairro carrega mais de 260 anos de história muçulmana única e complexa.
District 6
Se quiser perceber melhor a história do apartheid e do Distrito 6, deve parar neste comovente Museu que presta homenagem às 60 mil pessoas de todas as raças expulsas de seu bairro na década de 1960. A visita ao museu é feita por um dos antigos moradores do bairro e falará sobre as regras que restringiam a livre circulação na cidade.
Para tentar resumir, o governo do Apartheid criou Townships que são áreas urbanas subdesenvolvidas e divididas racialmente.
Famílias de diferentes raças que viviam juntas numa comunidade harmoniosa foram removidas à força das suas casas depois da Lei Land Aérea Act durante o Apartheid. Casas foram destruídas, famílias separadas e a vibrante comunidade destruída. É uma história trágica. O terreno nunca foi reconstruído nem reaproveitado.
Woodstock
Woodstock um dos bairros criativos e modernos mais descontraídos da cidade.
É um dos bairros ‘carregados’ de história que muda de cara a cada ano e que oferece negócios alternativos, concept stores e lojas da moda. Hoje é conhecida pela street art, pela sua Feira da Ladra e pelas suas lojas de estilo industrial.
Township de Langa
Questionei-me bastante antes de fazer esta excursão.
Havia aqui um dilema ético e moral, neste tipo de experiência.
Por outro lado, algo parecia errado se eu simplesmente ficasse nos bairros ricos e nas áreas turísticas da cidade, sem dedicar tempo para conhecer a população local e ver o dia a dia da maioria dos sul-africanos.
Sempre tive interesse em compreender como e porquê existe tal disparidade no mundo, acrescentado pelo fascínio que tenho pelas pessoas, tradições e culturas.

O meu coração e a minha mente entraram então em conflito!
O meu interesse residia em compreender a História e abrir os olhos sobre da verdadeira África do Sul. A Cidade do Cabo é incrível mas eu queria experimentar entrar no “coração pulsante” do país.
Aqui no Township de Langa, as pessoas tentam melhorar as suas vidas e a comunidade tenta construir um futuro melhor. Mas, embora as coisas estejam diferentes, tomei consciência que ainda reside muita pobreza e condições de vida muito precárias. As pessoas vivem em contentores, sem água da companhia e com poucas instalações e infraestruturas.

Questionei-me ainda mais! Será que sou bem-vinda ou estou simplesmente a satisfazer a minha curiosidade? Estou a melhorar ou a piorar as coisas? O que estou aqui a fazer?
O meu guia acha que o turismo ajuda. Durante anos, as pessoas em Langa associaram o homem branco à polícia e à opressão. As divisões raciais que caracterizaram a África do Sul durante o Apartheid eram muito fortes e a violência contra os negros era gratuita.
O turismo mudou isso. Eles vêm um homem branco diferente, que se relaciona com eles, que tem curiosidade em saber um pouco sobre as suas vidas de forma pacífica e educada.
A minha visita a Langa não foi apenas reveladora mas realmente inspiradora. Todas as ideias pré-concebidas foram substituídas por um sentimento de esperança e positivismo. Há um orgulho óbvio em Langa, e também muitos sorrisos.




A África do Sul é um destino turístico popular para quem procura aventura, com os seus famosos parques nacionais, e safaris.
Capetown é uma cidade de contrastes a duas velocidades, cheia de modernidade através da arquitetura, dos edifícios, das lojas e restaurantes muito “europeus”. Mas, apesar do seu exterior deslumbrante, a desigualdade e a pobreza extrema assolam o país. Embora o Apartheid já não seja uma política oficial, os efeitos dele deixaram os sul-africanos negros em grave desvantagem social e económica.
É uma realidade e parece que concretizar a visão da nação arco-íris de Nelson Mandela, dum país que pertence a todos os que nele vivem, ainda requer algum tempo e muito esforço.
Crónica de Ely Pinto
Ely Pinto, Fotógrafa



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