‘Ficas mais bonita de vestido’. Mas alguém perguntou?

No outro dia partilhei uma foto no Instagram. Estava de calças, botas e uma camisa larga. Na legenda escrevi o que me saiu. ‘Grunge Style’, uma referência nostálgica aos tempos dos Nirvana. Alguém, do sexo masculino, escreveu um comentário em inglês. ‘Ficas mais bonita de vestido’. Sem pensar, deixei a minha resposta: “Não é sobre…

No outro dia partilhei uma foto no Instagram. Estava de calças, botas e uma camisa larga. Na legenda escrevi o que me saiu. ‘Grunge Style’, uma referência nostálgica aos tempos dos Nirvana. Alguém, do sexo masculino, escreveu um comentário em inglês. ‘Ficas mais bonita de vestido’. Sem pensar, deixei a minha resposta: “Não é sobre estar bonita ou não, é sobre sentir-me bem comigo mesma.”

Não dei muito mais importância àquilo, até ao momento em que apontei novamente o telemóvel para o espelho do quarto de hotel em que estava refletida a minha imagem. E nesse momento sorri. Porque só então me apercebi do que acabara de fazer. Há vinte anos não teria escrito aquelas palavras, ou melhor, poderia ter escrito, mas não seriam cem porcento sinceras. Seriam uma resposta irritada a um comentário machista. Uma tomada de posição. Desta vez, tinha sido diferente. Desta vez, era mesmo aquilo que queria dizer, sem tirar nem pôr. E sorri porque representou para mim uma pequena vitória – e as pequenas vitórias devem ser celebradas, mesmo que apenas com um sorriso.

Cheguei, genuinamente, ao ponto do ‘não me interessa o que pensas, esta sou eu, gostas, gostas, se não amigos na mesma’. Visto-me para mim, não para que os outros pensem se estou mais ou menos bonita, se sou mais ou menos a imagem que eles têm do que deve ser uma mulher – eles e elas. Andamos sempre a despejar os nossos pré-conceitos em cima dos outros e nem sequer nos apercebemos (e sim, aí também faço mea culpa). Se estás mais magra ou mais gorda, se ficas melhor com os cabelos brancos à vista ou pintados, se deves adotar um ar natural ou carregar na maquilhagem para esconder as marcas de acne, se é suposto aceitar cada pelo do nosso corpo ou tirá-los a todos, se a celulite é ou não para mostrar. Opinamos e opinamos e voltamos a opinar, em vez de deixarmos o outro simplesmente ser. Porque é que é tão difícil isso? Porque é que nos irrita que os outros sejam diferentes, tanto que, no caso das pessoas mais próximas, até temos a falta de humildade de pensar que o fazem única e exclusivamente com o intuito de nos irritar? Porque é que temos de dar a nossa opinião, mesmo quando ninguém a pediu? E porque é que temos de ser reféns da opinião dos outros?

Será que é porque, de alguma forma retorcida, vemos devolvidos nos outros e nas suas escolhas outros mal-estares que temos em nós ainda não escancarados?

Não tenho as respostas, nem a ambição de algum dia as ter. Apenas fiquei orgulhosa por ter dito ‘não quero saber o que pensas de mim’. Mais: ‘não quero saber o que pensas do meu aspeto”. Claro que numa sociedade em que somos bombardeados com passado de séculos, influencers e tribos, não podemos escapar às referências que existem na sociedade. Não inventei a pólvora com aquele visual, mas fui encontrá-lo nas referências e valores com as quais me identifico. Trata-se de encontrar a imagem que nos faz sentir nós próprios. É obviamente impossível fazer tábua rasa de que há um passado por detrás de cada pequena escolha. Então, vamos escolher qual é a nossa história e não deixar que sejam outros a fazê-lo por nós.

‘Bora nessa?

Texto escrito por Sofia Martinho, especialista em Marketing e Comunicação

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