10 coisas que fui obrigada a aprender com o meu filho

Ser mãe nunca foi um objetivo de vida. Até aos trinta e muitos anos as prioridades eram outras. A carreira, os amigos, as viagens, o tempo para fazer o que me apetecia, nem que fosse fazer nada. Até que fui vítima do implacável relógio biológico que, vai se lá saber porquê, ataca algumas mulheres. A…

Ser mãe nunca foi um objetivo de vida. Até aos trinta e muitos anos as prioridades eram outras. A carreira, os amigos, as viagens, o tempo para fazer o que me apetecia, nem que fosse fazer nada. Até que fui vítima do implacável relógio biológico que, vai se lá saber porquê, ataca algumas mulheres. A mim atacou-me forte e feio. E, sem grande esforço, engravidei. É um lugar-comum dizer-se que amei o meu filho antes de o conhecer. Verdade. E quando o vi, pequeno, enrugado e cem por cento dependente de mim, percebi que o meu coração era irremediavelmente dele. Mal sabia que também me ia ensinar tanta coisa (e continua a fazê-lo), mudando a minha perspectiva da vida, dos outros e de mim mesma.

  1. Com ele aprendi que é imperioso controlar as expetativas. O melhor mesmo, na medida do possível, é abandoná-las. Uma criança não é o nosso espelho. Não herdou tudo o que nós pensamos ser o melhor de nós. E não pode viver o que nós não vivemos. Por isso só nos resta aceitá-lo. Ajudá-lo. Porque ele é único e são as suas capacidades que têm de ser alimentadas. Não as nossas. São os seus sonhos que têm de ser alimentados. Não os nossos. Os nossos somos nós que temos de fazer por eles.
  2. Com ele aprendi a respirar fundo em vez de agir a quente. A compreender que há que gerir energias para as batalhas que realmente interessam. E a parentalidade pode ser um campo difícil, porque aquela pessoa mais pequena tem a sua personalidade e, por vezes, deixa mesmo de ser ‘fofinha”. Faz parte do processo que queira ganhar espaço e ter vontade própria. Por isso, agora escolho a dedo aquilo em que vale a pena gastar a minha energia para meter alguma ordem na situação, mas não valorizar aqueles embates que parecem mais tornar-se uma luta de galos e que, se olharmos bem, não têm qualquer importância na ‘big picture’.
  3. Com ele aprendi o valor do ‘não’ e o valor do ‘sim’. A importância de pensar antes de dizer uma destas duas palavras, porque, ao dizer um ‘sim’ ou um ‘não’ não há volta a dar. Temos de manter a coerência ou rasgamos o tecido de confiança que é essencial entre pais e filhos. Eles deixam de acreditar em nós. Porque é que o haveriam de fazer?
  4. A controlar as mentiras ‘piedosas’ ou ‘sociais’. As crianças não percebem porque estamos a despachar uma conversa no telemóvel ao dizer “tenho alguém a tocar à porta.” Para eles, uma mentira é uma mentira. E confrontam-nos com isso: “Porque é que mentiste, mãe?”. Faz-nos pensar nas dezenas de pequenas mentiras que dizemos todos os dias e que achamos que não têm importância. Mas têm ou não nos queixávamos depois de serem os filhos a mentirem-nos a nós.
  5. Obrigou-me a compreender que éimpo ssível escudá-lo da presença da Internet, redes sociais e videojogos na sua vida. Ou mudava-me com ele para uma caverna nos confins do mundo ou essa realidade, que domina a vida dos adultos, iria fazer parte da dele (como podemos nós, que vivemos agarrados ao telemóvel, estranhar que os nossos filhos façam o mesmo?). Falo com ele sobre trolls, fake news, duvidar, questionar. E se adora ver shorts e jogos, aproveita esse interesse para ir mais longe. ‘Gostas de Youtube? Então, vou ensinar-te a fazer vídeos. Não te limites a ser um consumidor. Sê um criador!’
  6. A valorizar o tempo para mim. Aquele momento do dia em que ele se deita e a casa cai no silêncio, em que posso passar em revista o meu dia, auscultar como me sinto ou simplesmente focar-me na respiração. Dez minutos valem hoje mais do que uma tarde a ver séries em looping na Netflix.  
  7. A não permitir faltas de respeito de terceiros. Nem à frente do meu filho, nem sem ele estar presente. Eu sou mulher e de mim vai partir a ideia que ele vai formar sobre como as mulheres podem ser tratadas (os seres humanos em geral na verdade). Não posso permitir que ele veja na mãe a fraqueza de quem não se sabe defender. Ou verá isso em todas as mulheres.
  8. A escolher sabendo que as minhas melhores escolhas são as melhores escolhas para ele. Há momentos em que eu tenho de ser a prioridade. Se estou infeliz com o trabalho, com uma relação amorosa, ele vai sofrer com isso, porque, mesmo que me esforce por disfarçar, vai haver uma ação, uma palavra, em que vai perceber que a mãe não está bem. Prefiro explicar-lhe dentro de uma linguagem que perceba o que se está a passar comigo e depois dizer-lhe que vou fazer algo para ficar melhor. Afinal, se o quero ensinar a lutar pela sua felicidade, mesmo quando isso implica escolhas difíceis, como não dar o exemplo?
  9. Ganhei mais consciência que as relações passam, mas nós ficamos. Que as minhas escolhas têm de ter em conta o meu projeto de vida e o do meu filho e que não há ninguém que se possa sobrepor a isso. Porque é minha responsabilidade absoluta tomar conta dele. Um homem (ou uma mulher) podem entrar e sair da nossa vida porque as relações amorosas são sujeitas ao risco, à decepção, ao extinguir da paixão e do deslumbramento. Por isso, nunca tomo uma decisão em que não pense: “Se esta pessoa se for embora da minha vida de um dia para o outro, como é que nós ficamos, eu e o meu filho?’ E a resposta tem de ser ‘bem’. Porque a nossa estrutura permanece.
  10. Aprendi que o meu filho não me pertence. Que não é propriedade minha. Que está durante algo tempo à minha responsabilidade. Depois, tenho de lhe dar as asas para um dia abrir a janela e voar. Sem cobrar. Sem exigir. Deixando-o simplesmente fazer aquilo que também nós pedimos aos nossos pais quando éramos jovens: viver a sua vida. Eu vou sempre estar por aqui.

Texto escrito por Sofia Martinho, especialista em Marketing e Comunicação (e mãe de um miúdo de 10 anos)

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