Patagónia: “Mochilar” para se reencontrar

Temos todos altos e baixos ao longo da nossa vida. Momentos em que nos sentimos confiantes e dispostos a enfrentar qualquer situação. E outros onde sentimos uma grande fragilidade e muito vulneráveis. Geralmente, corre tudo mal. Não conseguimos ver a luz no final do túnel. Também já passei por uma dessas fases. Pensei que nunca…

Temos todos altos e baixos ao longo da nossa vida. Momentos em que nos sentimos confiantes e dispostos a enfrentar qualquer situação. E outros onde sentimos uma grande fragilidade e muito vulneráveis. Geralmente, corre tudo mal. Não conseguimos ver a luz no final do túnel.

Também já passei por uma dessas fases. Pensei que nunca mais iria encontrar a leveza e a alegria que me caracteriza. Fiquei assustada.

Queria viajar de mochila para a Patagónia já há algum tempo, mas não pensei que fosse a melhor altura para o fazer. No entanto, não queria abdicar do meu projeto inicial, independentemente do meu estado de espirito.

Preparei a mochila sem me questionar muito, as botas de caminhada, barras energéticas, e fugi. 

Para o Chile.

Conhecemos todos a marca de roupa que leva o nome deste lindo lugar, mas muitas vezes não conseguimos identificar onde fica no mapa. 

A Patagónia é vasta, muito vasta e também muito pouco povoada, com apenas 3,8 habitantes por km²!

Representa quase metade do Chile e da Argentina. Localizada no extremo sul da América do Sul, a sua espinha dorsal é a Cordilheira dos Andes que acaba na Tierra del Fuego, da qual está separada pelo Estreito de Magalhães. Sim, sim! Esse mesmo!….  Batizado com o nome do explorador português, Fernão de Magalhães.

Então, do lado Oeste, o oceano Pacifico banha as costas muito acidentadas do Chile, e do outro lado, o Atlântico acaricia a costa Argentina. O ponto de encontro dos dois oceanos é o Cabo Horn. Cada nome soa a aventura, não é verdade?
 
Território selvagem e indomável, varrido pelo vento, a Patagónia oferece parques nacionais únicos, picos de montanhas irregulares, campos de gelo dramáticos, desertos, glaciares brutais, clima muito imprevisível e algumas das melhores caminhadas do mundo. Porque sim: a Patagónia é o paraíso para fazer trekking, e foi precisamente por isso que escolhi ficar lá um mês.

Aviões, autocarros, barcos, posto de fronteira terrestre, trilhos de caminhada, pousadas, casa de hospedes…. É bastante fácil orientar-se por conta própria. Basta boa vontade, um pouco de organização e uma grande dose de humildade.


Chile
Torres del Paine


First stop Puerto Natales
A pitoresca cidade de Puerto Natales é a porta de entrada para o Parque Nacional de  Torres del Paine, a joia da coroa da Patagónia chilena!

Aqui já sentimos um pouco no fim do mundo: poucas pessoas nas ruas, paisagens selvagens no horizonte e nuvens cinzentas. Os moradores parecem compensar o clima atormentado à maneira escandinava, ou seja, colorindo os exteriores das casas.

Faça um passeio de barco no lago Grey para ver o Glaciar, explore a zona Pehoe até o mirador Condor, navega até aos glaciares Balmaceda e Serrano e descubra a grandiosidade do que a região tem para oferecer. Existem varias opções para caminhadas, como o famosíssimo  W-trek ou o mais desafiante O-trek.

Este lugar é excepcional, não perca!  Fiquei cativada, senti-me pequenina mas livre e encantada a cada passo.

A origem do nome de Patagonia

A etimologia do nome está no meio de muitas controvérsias.

No seu diário de viagem publicado em 1524, Antonio Pigafetta, um sobrevivente da expedição com Magalhães, relata o seu encontro com um “gigante tão grande que o mais alto de nós só chegava à cintura”.

O capitão batizou os habitantes de “Pataghoni” (pés grandes), daí o nome “Terra dos Pés Grandes”. 


Argentina

Seis horas de autocarro mais tarde, um posto de fronteira terrestre, paisagens invulgares e guanacos (lamas desta região), está situada a turística cidade de El Calafate, na Argentina.

Novo país, nova moeda, e novas regras!

O peso argentino tem sido afetado por uma inflação severa há décadas. Esta inflação torna o valor do peso bastante instável, com os preços mudando frequentemente.

Embora muitos países tenham sido atormentados por uma inflação de 7% ou 8% nos últimos anos, a inflação na Argentina atingiu 180%!

Os argentinos preferem manter e negociar em dólares americanos, que é visto como uma moeda mais estável.

Esta situação levou ao desenvolvimento de dois mercados distintos para a troca de moeda.

Existe o mercado oficial, onde o governo define a taxa de câmbio, e o “mercado azul” onde a taxa de câmbio é determinada pela oferta e pela procura.

Parece difícil de perceber, mas é tudo muito legal!


El Calafate

El Calafate é uma outra parada obrigatória. É o ponto de partida para vários parques nacionais aqui na zona, e o ponto de encontro de vários “mochileiros”.

Se os poucos habitantes tiveram algo em abundância, foi o espaço. Havia muito mais ovelhas do que pessoas e, portanto, nas primeiras décadas do século XX, a principal fonte de rendimento foi a lã.

Porém, foi só na década de 1940, com a instalação do Parque Nacional Los Glaciares, que El Calafate transformou-se numa cidade mais atrativa.

Estradas e hotéis foram construídos e empresas foram abertas tornando a região um dos mais fortes polos  de atracção turística da Argentina.

Enquanto a maioria dos glaciares em todo o mundo são afetados pelo aquecimento global e, portanto recuam, o corajoso Perito Moreno luta pela sua sobrevivência. A perda e o ganho de massa são incrivelmente equilibrados.

Acha que observar uma parede de gelo azul torna-se chato?

Está muito enganado! Enquanto olha para este enorme bloco de gelo, ouve-se constantemente o gelo a estalar e enormes pedaços de icebergs soltam-se e caem na água. É como se esta criatura de gelo gigante estivesse viva. É um espetáculo indescritível.


El Chaltén

A principal atração de El Chaltén são as caminhadas: quase todas partem diretamente da cidade. Outro aspeto de que gostei foi da atmosfera.

Apesar de estar situado num beco sem saída, El Chaltén é de surpreendentemente fácil acesso e atrai milhares de turistas todos os anos. A cidade é construída a volta do turismo e a rua principal está repleta de padarias, restaurantes, hotéis e bares. Apesar de ser um destino turístico popular, é um paraíso para os amantes de natureza e de atividades ao ar livre.

Rodeado por paisagens magníficas, incluindo o imponente e icónico Fitz Roy e vários glaciares, El Chaltén é um dos lugares mais deslumbrantes que já visitei.

Os Gauchos nas pampas da Patagónia

O gaúcho é um dos símbolos culturais da Argentina. Equivalente sul-americano do cowboy, ele encarna orgulho, coragem e é acima de tudo o símbolo da liberdade para os argentinos. Os gaúchos (significa “órfão”) eram originalmente crianças mestiças hispano-indianas. Rejeitados pela sociedade, tornaram-se, por força das circunstâncias, homens rudes e livres que andavam de cavalo pelas paisagens sem fim em busca de trabalho. O gaúcho é facilmente reconhecível pela roupa que usa: botas de couro, calças largas chamadas “bombacha”, camisa larga, colete de lã, lenço no pescoço e, claro, uma boina …. O gaúcho nunca se separa do seu “facón”, uma pequena faca na cintura.

Ushuaia

O fim do mundo é o que se ouve muito aqui, por ser a cidade mais a sul do mapa e onde terminam todos os caminhos. Acaba um caminho, mas começa outro. Porta de entrada para as caríssimas expedições para Antártica, Ushuaia com o seu ambiente montanhoso, e a sua vista para o canal de Beagle, merece uns dias de visita.
O parque Tierra del Fogo, está dividido entre Argentina e Chile e oferece muitos trilhos para caminhadas agradáveis com vistas deslumbrantes.


Há um assunto com o qual não se brinca aqui, é as ilhas Malvinas.
Colonizadas, reivindicadas e disputadas por muitos países ao longo dos anos, as Malvinas são controversas. Até mesmo tentar dizer “Falklands” em vez de “Malvinas” em Ushuaia, é potencialmente ofensivo.

Hoje em dia, as ilhas continuam reivindicadas pela Argentina, mas estão sob controle britânico desde 1833, e mais de 98% das pessoas nas ilhas votam para permanecer um território do Reino Unido.

A Patagónia é sinónimo de solidão, imensidão, liberdade. É uma terra irreal com os sunsets mais bonitos que já vi.


Que a sua motivação seja a contemplação da Natureza ou a observação duma fauna excepcional, como a baleia franca, de pinguins, focas e elefantes marinhos, não pense duas vezes. A Patagónia de mochila as costas vai com certeza mudar a sua maneira de ver o mundo. 

Viajar de mochila, é uma sensação de liberdade muito grande. Tudo o que realmente precisamos para uma viagem dum mês, cabe numa mochila de 50L. Estamos mais leves e mais preparados para o imprevisível.

Tem-se a oportunidade de criar uma conexão mais profunda com os lugares e não só.
Esta forma de viajar oferece um flexibilidade incomparável: ir ao seu próprio ritmo, tomar decisões espontâneas, descobrir lugares escondidos.
Viajar  sozinho não significa estar sempre sozinho. Somos mais acessíveis  e mais disponíveis para interações e conexões pessoais mais ricas e  genuínas. Mergulhamos em novas culturas, criamos memórias inesquecíveis, e talvez o mais importante, descobrimos mais sobre nos próprios.

Na Patagónia, aprendi que somos capazes de enfrentar e superar qualquer desafio.  Somos muito mais fortes do que achamos.

É uma experiência única e incomum. A Patagónia transformou a minha viagem numa conquista pessoal e de autodescoberta memorável.

Uma crónica de Ely Pinto, fotógrafa, contadora de histórias em imagens

Instagram: ely_inwonderland