“Medito quatro horas por dia. Você conseguiria fazer o mesmo?”, questiona um sacerdote brâmane para a câmara, antes de se lançar numa justificação do sistema de castas na Índia: cada um nasce no lugar que lhe é destinado pelo Karma e faz aquilo que lhe é destinado pelo Karma e é assim que tem de ser porque as Leis de Manu são a palavra dos Deuses e o proclamam. Cada um no seu lugar, sem espaço para questionamentos, os Dalits (Intocáveis) debaixo de todos os outros, a apanhar cadáveres desmembrados nos caminhos de ferro, a limpar a latrinas e nas ruas, a colocar sobre a pele nua os corpos de animais fétidos e em putrefação, a sentarem-se no chão e a olharem sempre para baixo, um grupo de Intocáveis, de lugar tão baixo na escala social que podem conspurcar os outros com o seu toque e que nem o nome dos filhos podem escolher.
Neste ponto do documentário India Untouched: Stories of a People Apart, a minha mente ocidental pergunta ao tal monge, em revolta: “Serve-te de muito a meditação, se olhas o mundo toldado pelo preconceito? Cada ser no seu lugar. O teu status quo inalterado, protegido. E meditas sobre ou para o quê?”
Do outro lado, não há resposta. Apenas o desfilar dos (não) motivos que justificam as premissas do hinduísmo bramânico, uma das várias correntes do hinduísmo, mas que se impôs de forma tão alargada na Índia que mesmo quem muda de religião, tem sobre si, antes de mais, o selo da sua casta como definidor da sua posição no mundo. Uns oram à frente, outros atrás, alguns nem podem entrar dentro dos templos. Deus não é para todos. Deus, pelos vistos, também pode ser conspurcado.

Isto porque, apesar das castas terem sido abolidas pelo governo indiano em 1947, quando a Índia conquistou a independência dos britânicos, a discriminação mantém-se atualmente, como demostra este impressionante documentário do realizador indiano Stalin K. disponível no Youtube. São necessárias mais do que leis para mudar o homem. A viagem de Stalin k durante quatro anos para capturar o sistema de castas que governa toda a Índia mostra isso mesmo.
Ora o Yoga está presente no hinduísmo, que incorporou esta metodologia nas suas práticas. Mas será ainda Yoga de que falamos, quando a sua essência é desvirtuada, quando os seus postulados básicos – não religiosos, mas filosóficos. de expansão da consciência – são transformados em apenas mais uma forma de manutenção de um sistema social e político marcado pela discriminação? É o Yoga realmente Yoga quando falamos de bramanismo, hinduísmo ou de qualquer forma de apropriação ao serviço de um plano ideológico, político ou económico?
Este documentário pode fazer-nos refletir no que é a natureza de algo. O Yoga como definido por Pantajali não é o mesmo Yoga que ajuda a criar uma dicotomia social como o sistema de castas, alimentando a sua violência no jogo pelo poder. Não é esta visão o contrário do que é o Yoga e não é possível definir algo (também) pelo seu contrário? Colocar uma metodologia que visa a expansão da mente ao serviço de uma religião, misturá-la com superstição, medo e preconceito, não leva a que, com o tempo, do outro lado do mundo, outras pessoas (nós) estejamos a repetir palavras e mantras e nomes de deuses sem termos noção de que esse ‘lado’ do Yoga não é a verdadeira essência do Yoga, mas é antes fruto de camadas e camadas de misticismo cego que lhe foi depositado pela vontade do homem dominar os outros homens, uma vontade comum às grandes religiões do mundo? Se apenas um grupo compreende a palavra divina, o outro só tem de escutar e obedecer. Cada um no seu lugar. E séculos depois, num Ocidente que se diz querer despertar, repete-se a ladainha de uma visão deturpada.
Aquele monge que medita, mas na verdade não vê, recorda-me que tudo pode ser pervertido e colocado ao serviço do ego e da sua necessidade de poder. E permanecemos no Maya, na ilusão. Nesse caso, é de Yoga que estamos a falar? Do yoga que se propõe libertar a mente da prisão rumo à sua expansão?
Este documentário foi uma forma de compreender o que para mim não é o Yoga. A minha mente e o meu coração dizem-me que algo é definido pela sua essência, não por um nome. “Se uma rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume?”. A esta frase de Shakespeare, respondo que sim.
Se o Yoga tivesse outro nome, continuaria a ser o Yoga? Provavelmente sim. Mas o Yoga ao serviço de crenças limitadoras continua a ser o Yoga? Pode algo ser aquilo que não é?
Pode assistir ao documentário aqui!


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