O yoga é amplamente reconhecido pelos seus benefícios físicos e mentais, mas a investigação científica mostra que os seus efeitos vão muito além da sensação de bem-estar imediato. Estudos em biologia molecular revelam que a prática regular de yoga pode influenciar a expressão genética, atuando diretamente em mecanismos relacionados com a inflamação crónica, um dos maiores fatores de risco para doenças modernas.
O papel da inflamação no corpo
A inflamação é um mecanismo natural de defesa do organismo. Quando sofremos uma lesão, uma infeção ou até mesmo stress intenso, o corpo ativa o sistema imunitário para reparar tecidos danificados e combater agentes externos. Nesse processo, células imunitárias libertam substâncias químicas — como citocinas e proteínas inflamatórias — que ajudam a conter a ameaça e iniciar a cura.
O problema surge quando este estado de alerta não se desliga. Fatores como má alimentação, sedentarismo, stress crónico, poluição, privação de sono ou infeções persistentes podem manter a inflamação ativa, mesmo sem uma ameaça imediata. É o que se chama inflamação crónica de baixo grau.
Com o tempo, este “fogo interno” silencioso desgasta o organismo e está associado ao desenvolvimento de doenças como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, artrite reumatoide, Alzheimer e até alguns tipos de cancro.
Um dos principais reguladores deste processo é o fator nuclear kappa B (NF-κB) — uma proteína que funciona como um “interruptor genético”. Quando ativado em excesso, o NF-κB estimula genes responsáveis por produzir mediadores inflamatórios, perpetuando a resposta inflamatória e contribuindo para o ciclo da inflamação crónica.
Yoga como modulador genético
Pesquisas em epigenética demonstram que práticas mente-corpo, como yoga e meditação, podem reduzir a atividade do NF-κB, diminuindo a expressão de genes pró-inflamatórios. Ao mesmo tempo, estimulam a ativação de vias anti-inflamatórias, promovendo um ambiente celular mais equilibrado e protetor.
Uma revisão publicada no Brain, Behavior, and Immunity por Bower & Irwin (2016) analisou os efeitos de terapias mente-corpo, incluindo yoga e meditação, e concluiu que estão associadas a reduções consistentes em marcadores inflamatórios, como citocinas e proteínas C-reativas.
De forma complementar, uma revisão sistemática no Frontiers in Immunology (Buric et al., 2017) mostrou que práticas como yoga e meditação podem alterar a expressão de centenas de genes relacionados ao stress e inflamação, fornecendo evidência robusta do impacto direto destas intervenções a nível molecular.
Estudos clínicos também corroboram estes achados. Por exemplo, um ensaio clínico randomizado com sobreviventes de cancro da mama mostrou que 12 semanas de yoga reduziram a atividade inflamatória via NF-κB (Bower et al., 2014).
Benefícios práticos desta modulação
Reduzir a inflamação através de alterações genéticas significa mais do que aliviar sintomas: é atuar na raiz de muitas condições crónicas. Entre os efeitos reportados em praticantes regulares, destacam-se:
- Diminuição da dor associada a doenças inflamatórias;
- Melhor recuperação após exercício físico intenso;
- Maior resiliência ao stress, que por si só potencia a inflamação;
- Proteção contra doenças crónicas ligadas ao envelhecimento.
O yoga não apenas relaxa músculos e acalma a mente, mas pode reprogramar a atividade genética relacionada à inflamação, promovendo equilíbrio celular e saúde a longo prazo. Este é um exemplo poderoso de como práticas ancestrais, quando estudadas pela ciência moderna, revelam um potencial transformador profundo para a saúde preventiva.


Deixe um comentário